Entrevista com João Albuquerque

As pesquisas indicam que o Cooperativismo emergiu no Brasil no final do século XIX, estimulado por funcionários públicos, militares, profissionais liberais e operá rios, com o objetivo de atender às necessidades dessa população. Desde então, esse movimento se fortaleceu e se aprimorou, ganhando ainda mais relevância social. Para conversar sobre a importância e presença das atuais entidades cooperativistas, o Corecon PE entrevistou João Albuquerque, Economista especialista nesse segmento e atualmente integrante do time de conselheiros da entidade. Além do Conselho, João é Analista do Sebrae Pernambuco e membro do Sistema de Cooperativas de Crédito do Brasil, o Sicoob.


A sua especialidade é na área de cooperativismo. De que modo você começou a trabalhar nesse segmento?


Minha formação é em Economia, mas minha experiência profissional, desde a origem, é com pequenos negócios. Meu primeiro emprego foi na União Nordestina de Assistência às Pequenas Organizações. Trabalhávamos com grupos produtivos, microcrédito. Naquela época a gente já fomentava o associativismo através de grupos de proximidade, informais, um grupo de pessoas que se reuniam em busca de melhores resultados. Organizávamos grupos de artesãos para comercializar obras. Tive experiência com uma cooperativa de oleiros, na década de 80, produção artesanal, manual de telhas. Ali em Bezerros essa atividade tinha uma importância econômica muito grande. Depois eu entrei no Sebrae, à época, o Seagre, no final dos anos 80, e fomos trabalhar com cooperativismo, associativismo. Fomos trabalhar no Progerar, Programa de Geração de Emprego e Renda, que incentivava produção coletiva, melhores resultados, produtividade. O Seagre, através de convênio com Banco do Nordeste, Banco Interamericano de Desenvolvimento, captou recursos para apoiar esses grupos. O Sebrae sempre teve como foco o pequeno negócio e valorizou o associativismo como forma de união dos pequenos na busca da economia de escala, ou seja, unindo os pequenos tanto no sentido de diminuir o valor das compras em grupo, dando maior condição de barganha, matérias primas, assim como os ajudou a comercializar, juntar a produção de pequenos negócios e vender no atacado.


Quando o Sebrae e o associativismo começaram a ganhar maior adesão nas comunidades e quais foram as dificuldades que você enfrentou durante esse período?


O papel do Sebrae era mais de transformar o pensamento das comunidades, que era um pensamento mais romântico, faziam o associativismo por filosofia, por romantismo, muito amador. Era preciso transformar isso para um enfoque mais profissional, de ganhar dinheiro, gerar renda, emprego. A gente sentia muito amadorismo, eram profissionais no nível de subsistência. Até falar em ganha dinheiro parecia um palavrão naquela época. As pessoas não tinham uma visão de lucro, se ganhassem para sobreviver, para eles estava bom demais. A gente trabalhava com esses grupos no sentido de orientá-los para formar o preço de vendas, uma coisa que eles não tinham noção nenhuma. Fazer um curso de formação de preço, de análise de custo, e de técnicas de comercialização, que eram muito incipientes, preparar esse pessoal para o comércio. A questão da qualidade no atendimento e as cooperativas tinham muita dificuldade de encarar o mercado. Não eram preparadas pra isso, para essa concorrência. A maior dificuldade era a comercialização. Não sabiam organizar a produção, desde a produção propriamente dita, até na questão da gestão; saber o preço que está vendendo e conhecer o mercado e a qualidade do produto, que também dificultava a venda. Havia muita falta da experiência empresarial e da cultura empresarial.


Quais os projetos e ações que você considera mais significativos ao longo de sua carreira?


Tive uma experiência na área de elaboração de projetos e aí a gente já passou mais a atender o empresário individual, elaborando projetos de investimentos para o banco do nordeste, principalmente, Banco do Brasil, bancos de fomento que, naquela época, não se fazia nada que não houvesse um projeto de investimento na frente. Até mesmo pra você alavancar um recurso de capital de giro, uma operação muito simples, que basta você analisar somente o fluxo de caixa da empresa, até pra isso se exigia um projeto. O Sebrae era especialista nisso. A gente elaborava esses projetos pra Caixa Econômica, Banco do Brasil. Eram projetos pequenos. Um dos papeis nossos, ao longo desse período, foi mostrar a necessidade de os bancos desburocratizarem os trâmites do projeto. O Sebrae conseguiu, ao longo desse tempo, a levar a essas instituições a não exigir projetos para empresas que já tenham experiência no mercado. Era preciso simplificar o processo de crédito. Desde a origem do Sebrae, a gente atua nessa área do serviço financeiro. Antes nós chamávamos tudo de crédito, mas crédito, se supõe, empréstimo, financiamento, e não é só isso que uma instituição financeira oferece. É muito mais que isso. Você tem que orientar o empresário a poupar, investir, entender o que são os meios eletrônicos de pagamento hoje, e que é importante vender e receber no cartão. Tudo isso é serviço financeiro, não deve ser restrito somente a crédito, a receber empréstimo. Vai muito além do que isso, são serviços financeiros de um modo geral. Todos os portfólios de produto que o banco precisa oferecer e o empresário precisa estar preparado para entender, pois ele pode um dia precisar.


Na sua opinião, quais as principais dificuldades enfrentadas pelos empresários no momento em que eles se dirigem aos bancos em busca de crédito?



A maior dificuldade para o empresário, quando ele procura um serviço financeiro, é entender o que é que o banco quer dele. Do jeito que o banco não entende a empresa, a empresa não entende o banco. Há um descompasso de conhecimento entre as partes. Nós chamamos isso na Economia de “assimetria de informação”. O banco não entende a empresa e a empresa não entende o banco. Esse desencontro entre as partes gera dificuldade na empresa. O banco tem dificuldade de oferecer os seus produtos, como o crédito, por não conhecer a empresa, e a empresa não sabe o que o banco quer dela, nem sabe se vender para o banco. (A empresa) Não está preparada para entender a linguagem bancária. O Sebrae atua nesse hiato, tentando juntar essas partes e fazendo com que elas se conversem, de maneira que ambos se saiam bem nessa transação.


O que o empresário que se dirige ao banco não sabe exatamente?


O empresário não sabe principalmente o quanto custa um financiamento. Muitas vezes você só vende a taxa nominal paga ao cliente, mas tem uma taxa efetiva, porque numa operação você não cobra só os juros da operação. Você cobra outros serviços ali embutidos. Muitas vezes o empresário naquela ansiedade de buscar o dinheiro ele acaba até comprando outros produtos, encarecendo a operação. Uma coisa que é difícil de entender é como é que funciona essa questão dos juros compostos. Isso não é só o empresário, que geralmente só quer saber se a prestação cabe ali na sua capacidade de pagamento e pronto. Mas ele não sabe o custo que aquilo tá trazendo pra ele, e por ele não saber disso não acaba colocando esse custo no preço de venda do produto. Na verdade, isso tem um custo para empresa. No momento em que eu sobrecarrego minha taxa de juros, isso vai impactar no meu produto. Imagine dois empresários vendendo o mesmo produto. Um tá trabalhando com o banco A, que cobra 20% de juros ao ano, o que é uma fantasia hoje, que é muito mais. Mas vamos pensar que seja para investimento, um cobra 20%, o outro 10%. Se essa empresa colocar isso em conta, ficará menos competitiva com relação a esse outro concorrente, que tá pagando só 10%. O juro é uma despesa, e muitas vezes o empresário não sabe que tem essa despesa. E não computa isso no preço de venda.


Como o CORECON atua junto à comunidade empresarial pernambucana?


O CORECON tem diversos projetos para a comunidade pernambucana e está muito bem representado pela nossa colega Ana Cláudia Arruda e Fernando Aquino, que falam com muita propriedade sobre o cenário pernambucano, que é um dos papeis do economista. Entender a conjuntura e passar isso para a sociedade. Mostrar o cenário. E isso também é importante pra nós, que trabalhamos com o empresário, temos que estar com a visão de futuro. Transmitir segurança para o empresário com relação ao futuro da nossa economia.


De modo prático, o que as cooperativas realizam?


Hoje, chamamos de cooperativas financeiras porque elas não fazem só crédito. Fazem todas as operações bancárias. E nós entendemos que as cooperativas possuem um papel complementar no sistema financeiro. Por elas se constituírem como cooperativas de livre admissão, podem congregar empresários e estes serem donos de suas instituições financeiras. Como ocorre muitas vezes num banco, que tem a gestão concentrada no âmbito do governo do Estado, do governo federal, a cooperativa de crédito tem uma gestão local. A cooperativa oferece crédito não apenas para empresários, mas para consumidores, investidores, pessoas que usam os serviços bancários. Podem ser profissionais liberais, estudantes, donas-de-casa. Hoje existem as cooperativas chamadas de livre admissão, que podem englobar todas as pessoas, atividades econômicas, não só de empresário, mas normalmente as cooperativas têm uma composição no seu quadro de empresários mais fortes, até porque eles têm mais recursos. São eles que puxam a cooperativa, mas a maioria são lideranças empresariais que cuidam das cooperativas. É um grupo não só de empresários, mas de pessoas, que abre uma instituição financeira para usuários e donos de empreendimentos. O Cooperativismo financeiro é uma verdadeira paixão pra mim, uma cachaça.


A crise econômica afeta o setor?


A crise não deixa de afetar o setor. A crise afeta a todos os segmentos, mas as cooperativas de crédito muitas vezes crescem nesse momento de crise porque os bancos têm uma gestão mais conservadora nessa hora. Eles ficam mais avessos a correr riscos. Então as cooperativas de crédito, por conhecerem melhor seu grupo, arriscam mais. Muitas vezes é um grupo de empresários que sabem da empresa do outro, conhecem a empresa do outro, então eles têm mais facilidades. E se você pegar os resultados do sistema financeiro, ver o quanto cresceram os bancos e o quanto cresceram as cooperativas, mesmo na crise, os bancos cresceram na ordem de 12% ao ano e as cooperativas 19%. Para um PIB negativo, em 2015, tem-se um crescimento ainda enorme. As cooperativas têm mais facilidade de correr riscos.


E existe o risco de calote?


O calote existe, mas sem sombra de dúvida é infinitamente menor do que nos bancos. Principalmente por serem grupos de conveniência, conhecem os setores de atividades, estão situados em bairros, cidades, em que é muito mais fácil controlar essa inadimplência. Até porque o empresário é dono também e não vai querer dar prejuízo a ele mesmo. Os cooperados são investidores na cooperativa. Eles botam capital. Em um banco eu só vou lá comprar o serviço. Eu sou um cliente. Na cooperativa amplia-se esse conceito: eu sou dono e cliente ao mesmo tempo. Eu sou investidor, porque o conceito de investimento aí muda. ‘Eu fiz um investimento no banco’ não tem nada a ver, caderneta de poupança, enfim, eu não sou acionista daquele empreendimento. O banco te considera um anônimo nisso aí. Na cooperativa de crédito você é um associado; tem participação nas decisões da gestão; participa de assembleia para designar o destino da organização. Também, a decisão não é pra quem tem mais dinheiro no grupo, porque cada pessoa, independente do capital que tenha na sociedade, tem direito a um voto Um voto de um investidor que tem direito a 10 mil reais é o mesmo voto de um que tem 100 reais. Isso não acontece numa sociedade anônima, onde os acionistas majoritários têm um certo protagonismo e controlam pelo poder do dinheiro. Na cooperativa, cada associado tem vez, voto e voz. Então é mais flexível.


E na sua opinião, quais as perspectivas para esse setor no país?


O cooperativismo ainda tem muito espaço para crescer no Brasil, especialmente no Nordeste. O cooperativismo financeiro ainda é fraco no nordeste, tem muito espaço. Se você pegar a participação do sistema cooperativo nacional ele representa apenas 3%, falando-se do Brasil. E quando você vem para o nordeste, isso cai para 1%. Nas cooperativas do sudeste, do sul, até mesmo do centro-oeste, cooperativismo está muito mais pujante, mais forte, do que aqui. Falando aqui em Pernambuco, temos uma cooperativa de crédito chamada de Sicoob Pajeú Agreste e que está sendo chamada como Sicoob Pernambuco, porque está com um projeto de expansão no estado. O Sicoob PE, coincidentemente no dia de hoje (dia da entrevista), abriu sua primeira agência destinada ao público em geral, aqui no Recife, aberta na associação dos fornecedores de cana, ali na Imbiribeira. Nós já estávamos presentes aqui no Sebrae com o Sicoob, mas nós éramos fechados ao grupo de funcionários do Sistema S. Com essa agência, o Sicoob se abre a todas as classes, tanto empresariais, quanto estudantis, donas de casa, para ser mais uma entidade financeira a atuar aqui no recife. Então a perspectiva é muito boa de crescimento do sistema. O Sicoob PE já está presente nas principais cidades do estado, por exemplo, Arcoverde, Tuparetama, Afogados da Ingazeira, Garanhuns. A sede em São José do Egito começou como uma cooperativa de crédito rural e depois se ampliou para a sociedade toda. Demorou para entrar no Recife por uma questão de logística. Para uma cooperativa abrir num determinado local ela tem que pedir permissão ao Banco Central e até então tinha uma resolução no Banco Central que não permitia a constituição de cooperativas de crédito nas capitais. Essa legislação foi flexibilizada e hoje as cooperativas já podem atuar também nas maiores capitais do país.

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