Informativo sobre o pleito eleitoral de 2026
Por Diana Dias Sampaio
O avanço vertiginoso das plataformas de apostas, as chamadas bets, transformou o que deveria ser comercializado como mero entretenimento, em um risco sistêmico para a economia brasileira.
O tema ganhou tamanha urgência que, em 22 de setembro de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva utilizou seu discurso na Assembleia Geral da ONU para alertar que a indústria das apostas estava transformando o vício de muitos em lucro para poucos, endividando e destruindo lares, decretando dois dias depois, 25/09/2026, uma Medida Provisória que proíbe as bets no Brasil. Mas qual a relevância dessa medida para economia? Ao olharmos para os efeitos nefastos das bets, a medida foi extremamente importante para o país.
As apostas em bets vinha sugando recursos vitais do consumo e da poupança, exigindo respostas imediatas da política econômica, especialmente em regiões historicamente desafiadas pelas desigualdades de renda, como o Nordeste. Para compreender o impacto das bets, é preciso analisar o custo de oportunidade estrutural que elas impõem. Conforme destaca a economista Tania Cristina Teixeira, presidenta do Conselho Federal de Economia (Cofecon), um real destinado a uma aposta é um real subtraído da compra de alimentos, do pagamento de contas, da educação e do investimento produtivo. A dimensão dessa transferência de renda para às bets estava se tornando alarmante:
- O Ministério da Fazenda aponta a existência de 43,8 milhões de brasileiros inscritos nestas plataformas;
- Mensalmente, 8,5 milhões de usuários realizam depósitos que somam, em média, R$ 14,75 bilhões;
- Apenas no primeiro semestre de 2026, os apostadores amargaram um saldo negativo de R$ 20,2 bilhões, resultado da diferença entre os R$ 88,5 bilhões depositados e os R$ 68,3 bilhões pagos em prêmios.
Essa drenagem asfixia o setor produtivo. Um estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made/USP) estima que as bets retiraram até R$ 141 bilhões da atividade econômica no último ano de 2025. A suposta contrapartida tributária é uma ilusão matemática: o setor gerava cerca de R$ 9 bilhões anuais em arrecadação, valor insuficiente para cobrir os R$ 46 bilhões em tributos que deixam de ser recolhidos devido à queda vertiginosa do consumo das famílias.
O Brasil já enfrentava indicadores críticos de saúde financeira. Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), em agosto de 2026, 82% das famílias estavam endividadas e 29,9% se encontravam inadimplentes, com quase 30% da renda comprometida com dívidas. Nesse cenário de vulnerabilidade, as apostas atuam de forma predatória. A falta de educação financeira estava levando muitos brasileiros e brasileiras a tratarem as bets como investimento, atraídos pela promessa de ganhos rápidos em plataformas cujas probabilidades matemáticas sempre favorecem a casa.
Em agosto de 2024, o Banco Central revelou que 5 milhões de beneficiários do Bolsa-Família transferiram cerca de R$ 3 bilhões para casas de apostas bets. Em resposta, mecanismos de contenção do Estado barraram o acesso às plataformas autorizadas para mais de 800 mil pessoas que haviam renegociado dívidas até agosto de 2026. Esse bloqueio também se estendeu para cerca de 3 milhões de beneficiários de programas sociais e 1,2 milhão de pessoas que solicitaram autoexclusão.
As bets não geram bens ou serviços, mas produzem externalidades negativas massivas, financiadas por toda a sociedade. Para lidar com esse mercado predatório, o Estado foi forçado a montar uma infraestrutura complexa de Gestão de Apostas, que processa hoje cerca de 500 milhões de registros diários, para monitoramento e prevenção à lavagem de dinheiro.
Para além das questões puramente econômicas e do custo administrativo, há uma crise silenciosa na saúde pública. O Sistema Único de Saúde (SUS) passou a realizar até 100 mil teleatendimentos mensais, voltados exclusivamente para pessoas enfrentando problemas de saúde mental decorrentes do vício em apostas. Para maiores informações acesse: https://www.gov.br/saude/pt-br/campanhas-da-saude/2026/apostas-online
No Nordeste, onde o há um adensamento das políticas públicas sociais e onde o desenvolvimento econômico regional é um pilar fundamental da economia, o desvio de renda provocado pelas bets corrói décadas de avanços no combate à pobreza.
Em Pernambuco, uma resposta institucional começou a tomar forma diante da urgência de proteger o mercado consumidor local e as famílias superendividadas. Em setembro de 2026, o Procon-PE notificou 36 empresas de apostas de cota fixa bets que operavam no estado. A ofensiva do órgão de defesa do consumidor buscava exigir o cumprimento das normativas de proteção, além de mapear o impacto e a regularidade dessas operações sobre a economia local.
Esse tipo de enfrentamento estadual é vital para a economia, pois, a perda do poder de compra da população de Pernambuco afeta diretamente o comércio varejista pernambucano e a arrecadação de ICMS, sendo menos recursos essenciais para a manutenção da máquina pública estadual.
Deste modo, o debate sobre a regulamentação, restrição ou proibição das bets não pode se limitar à liberdade de consumo ou aos interesses comerciais, tais como a dependência aos patrocínios do futebol brasileiro. Esta análise deve ser guiada pelo custo/benefício para a sociedade e pela emergência em saúde pública da população cada vez mais endividada.
Ao permitirmos que recursos essenciais para a segurança e sustentabilidade de famílias disputem espaço com o vício e a ilusão, estamos comprometendo não apenas o consumo no presente, mas o desenvolvimento futuro do país.
Era urgente o enfrentamento dessa crise que não acaba com a MP do governo, mas exige articulação entre órgãos federais, estaduais e regionais para estancar de vez e sem volta a transferência da riqueza nacional para as bets, da forma como vinha acontecendo, proteger as bases da nossa economia e, mais importante, a vida das pessoas.
Diana Dias Sampaio é economista, Servidora Federal, Mestre em Desenvolvimento Regional e Urbano pelo IESA Instituto Sócio Ambiental da UFG, Conselheira do CORECON PE.
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